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segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Padin Chico - Gato d’água



- Enquanto isso, na “Sala da Justiça”…

- Brasília é um local muito seco. É impressionante, não precisa usar toalha, saiu do banho já está seco. Por isso, a importância das piscinas no cenário do cerrado, que além de trazerem fragmentos de azul para contrastar com o bege da poeira, minimizam os problemas de pele e o ressecamento das retinas dos moradores do Plano Piloto. Por isso Brasília é conhecida nacionalmente como a cidade das piscinas. Por isso parece muito comum e sem necessidade de ampla repercussão a notícia abaixo:

“O furto de água está crescendo nas áreas chiques de Brasília. Foram descobertas 440 ligações clandestinas de água. Os moradores fazem o chamado gato e não pagam nada. Em geral, a água serve para irrigar os jardins e encher as piscinas que são muitas nessa região.”

Num depoimento em OFF, um dos moradores da Asa Sul - que fora flagrado com um sistema ilegal de “interceptação de água” (e não quis se identificar) - trouxe a tona o seu ponto de vista sobre a questão: “O que tem de mais fazer um gato? O governo deveria sim regulamentar os gatos para regiões secas como o Planalto Central. Igualdade de condições, liberdade para fazer gatos tanto nas cidades-satélite quanto no plano piloto. Vamos deixar de ser hipócritas e exigir que o governo subsidie os gatos de água. Falta sensibilidade aí. Passe uma semana em Brasília no auge do período das secas e terás sensibilidade à flor da pele. O problema do Brasil é a falta de regulamentação. Se regulamentássemos a trambicagem, o preconceito, os disturbios, teríamos um outro país. Mas quem quer outro país?”

É muito dificil identificar no discurso deste senhor (M.B. – 43 anos) o quanto há de ironia, de cinismo, de surrealismo ou de ideologia convicta. Lamentamos que o depoimento tenha sido em OFF e que pessoas como ele ‘se escondam em liberdade’.

**Clique no título deste post e assista a um trecho da reportagem citada acima (inserida em um contexto que amplia a questão)

sábado, 8 de setembro de 2007

Padin Chico – Passado é Passado

Notícias de desvio de recursos públicos via SUDENE ou SUDAM são como chacinas. O público se acostumou a não dar muita audiência a certas tradições da nossa sociedade. Mas já fazia algum tempo que não ouvíamos novidades da Sudene ou Sudam. Foi quando surgiram as denúncias relacionando a empresa do então Ministro da Integração Nacional de FHC, Fernando Bezerra, que apontavam irregularidades (desvios e fraudes) em obras de abastecimento de água no nordeste.
Bezerra sempre foi um homem de negócios, a transitar entre empresas públicas e privadas. Mas sempre manteve a saúde empresarial das suas, em sua terra natal, o Rio Grande do Norte. Como Ministro, supostamente estaria desligado de suas empresas. Mas surgiu a denúncia de que uma das suas empresas havia sido favorecida em licitação e a mesma não teria entregue o serviço prometido. E a fonte começou a secar. FHC afastou-se do escândalo, disse ‘não é comigo’ mas titubeou em afastar o ministro. Antes que fosse demitido ou que fosse aberta uma CPI para atrapalhar o trabalho do (ex) chefe, Bezerra se demitiu e, seguro de si, deu uma longa entrevista coletiva explicando porque abandonava o governo e porque suas empresas tiveram tanto lucro nos últimos tempos

Eis alguns trechos que tentam sintetizar a coisa toda:

“….o prejuizo pouco importa (…) Nós saímos do negócio (…)
Isso não fere o código de ética, eu posso mostrar a você! (...) E se eu tiver cometido esse crime foi até agora. Daqui pra frente tá encerrado. Se tiver alguma coisa a pagar eu responderei por isso.”
Fernando Bezerra, ex-Ministro da Integração Nacional

De lá, Fernando Bezerra foi diretamente assumir a a cadeira de presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI) da qual estava lisenciado. O Conselho de Ética disse que, perante as leis, ele estava sendo investigado e não poderia assumir a presidência da CNI.

Mas, se logo depois do fato pouco se falou sobre o assunto…tudo isso é passado, notícia requentada que não interessa mais..

PS - Hoje Bezerra é Senador pelo PTB do Rio Grande do Norte e recentemente, em tempos de "apagão aéreo" foi cotado para assumir a INFRAERO.

**assista uma fração desse momento histórico clicando no título do post

Padin Chico - No compasso da persuasão


O projeto de transposição das águas do Rio São Francisco começou a ser alardeado como 'a mais moderna solução' para a seca do nordeste em 1847.

Desde então, praticamente todos os governos federais discutiram a grandiosa obra de engenharia. Neste período, aqueles que se opunham à construção cresceram, se multiplicaram e se diversificaram. No governo Lula o assunto mais uma vez, se fortaleceu na agenda orçamentária. Desta vez o início da construção já tinha data para começar. O presidente falava aos quatro cantos que “nunca nesse país…

O IBAMA do século XXI liberou a realização alegando que tudo mudou e o meio ambiente não teria mais prejuízos. Liminares foram derrubadas em outras instâncias políticas-jurídicas. As obras iam acontecer e apenas o noticiário especializado repercutia. Foi quando Dom Luis Flavio Costa, bispo diocesano de Barra (BA), ocupa os jornais, rádios e tvs anunciando que entrara em greve de fome para convencer o Poder Público a adiar o início das obras. Em um documento, Dom Costa diz que está disposto a levar o jejum até a morte, caso o projeto não seja suspenso.


Da úmida Avenida Paulista aos mais remotos cantos-secos do Brasil, passeatas emocionadas são feitas a favor de Dom Luis Costa. Faixas e cartazes de apoio, solidariedade e pedidos de plebiscito. Dom Luis aparece na TV cada vez mais magro. A pressão aumenta e o assunto ganha as primeiras páginas dos jornais, o último bloco dos telejornais e o horário matinal das rádios noticiosas.

A greve, de um-santo-homem-só, ganha repercussão internacional e o (na época) Ministro das Relações Institucionais Jacques Wagner (hoje governador) chega levantando muita poeira na seca cidade baiana. Com ele está uma imensa comitiva - de carros 4X4, seguranças e principalmente repórteres - para acompanhar a negociação com o grevista.

A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, maior megaphone da Igreja) se anuncia contra a transposição, mas reclama a escassez de poderes em um Estado laico. Dom Geraldo Majella traz a palavra, em nome da entidade sagrada:
“A Igreja tem o poder, digamos, de persuasão, mas não de determinação”

Dom Luis Costa se empolga:
“Tenho muita esperança no bom senso das nossas autoridades. Mas se por um acaso isso não acontecer eu estou nas mãos de Deus”.

O Carnaval se aproxima:

Elba Ramalho, em seu blog recém-inaugurado, também critica a transposição do Rio São Francisco. Supostamente a obra levaria água do Velho Chico para outros estados, inclusive para a terra natal de Elba, a Paraiba. Mas Elba está animada e tem argumentos vigorosos, além do apoio da CNBB, da OAB e do MST.


Censurada e perseguida por se declarar contra a transposição, Ramalho é bombástica: cancela a participação no carnaval de sua cidade e ameaça não voltar mais à Paraiba. Xeque-Mate. O assunto finalmente ganha destaque em veículos de amplo alcance, como as revistas semanais de celebridades.

Após muitas dicussões na TV aberta e algumas na TV Senado, as obras são paralizadas em respeito à devoção do bispo engajado e de outras manifestações hereges.

O governo da Paraiba, no entanto, não arrasta-pé e cancela o cachê de Elba Ramalho para o carnaval deste ano.
Segundo alguns moradores de Barra (BA), Dom Flavio Costa está visivelmente mais gordo.
A seca, as obras e o PAC seguem em água morna.
Dizem que mais uma vez Elba terá um trio-elétrico só para ela no carnaval de Salvador.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Padim Chico - em Caravana

Rio São Francisco - Caravana percorrerá País em debate sobre transposição
Tribuna da Imprensa - RJ
17/08/2007


Uma caravana composta por especialistas e representantes de movimentos sociais percorrerá as principais capitais do Brasil a partir deste domingo, para promover discussões e debates junto às universidades, prefeituras e governos estaduais sobre o polêmico projeto da transposição das águas do Rio São Francisco.

"O objetivo do grupo é alertar que a obra não resolverá os problemas da seca na região semi-árida do País e que ainda trará impactos negativos para a região e para a população", afirmou Apolo Heringer Lisboa, coordenador geral do projeto Manuelzão, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que promove a revitalização da bacia do Rio das Velhas.

O projeto de integração da bacia do São Francisco às bacias do Nordeste Setentrional (PISF), mais conhecido como projeto de transposição, está orçado em R$ 4,5 milhões e consiste na transferência de águas do Velho Chico para pequenos rios e açudes da Região Nordeste que têm volume reduzido no período de estiagem.

"Ilusionismo" As obras tiveram início em junho, no município de Cabrobó (PE), mas foram interrompidas pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), no último dia 26, que suspendeu a licitação das obras. A medida foi tomada após mandado de segurança de três empresas que perderam a disputa.

De acordo com o governo federal, a obra vai beneficiar 12 milhões de pessoas. Para Lisboa, esse projeto é um "ilusionismo": "É como combater a fome em uma cidade com a construção de supermercados."

Segundo ele, as pessoas que sofrem com a estiagem não receberão essa água. "É impossível distribuir água para uma população difusa. Elas só recebem (água) por meio de uma demanda difusa, ou seja, com chuva ou poços", disse.

Lisboa afirma ainda que a transposição irá apenas alimentar a "indústria da seca". "Existem alternativas mais baratas e que podem ajudar a resolver o problema. Essa obra é de interesse das grandes empreiteiras, dos projetos eleitorais e da elite política nordestina."

A jornada começará em Belo Horizonte e seguirá para o Rio de Janeiro, Brasília, São Paulo, Natal, Fortaleza, Recife, João Pessoa, Salvador, Aracaju e Maceió. "Vamos apontar as incoerências do projeto do governo federal e mostrar que desta forma o problema social da seca não será solucionado e que não vamos a lugar algum", afirma Lisboa.